MARCAS QUE A VIDA TRANSFORMOU EM CONHECIMENTO

José Fabiano exibe o rascunho de sua primeira obra, que será editada pelo JPF

Um exemplo a ser seguido. Assim pode ser definida a história de vida do poço-fundense José Fabiano de Oliveira (39 anos), residente no bairro rural Bocaina. Filho dos agricultores José Donizete (61) e Mariana (60), o rapaz nasceu com uma paralisia cerebral, ocasionada por um erro médico durante o seu parto, e acabou vendo que sua trajetória provavelmente seria ameaçada devido às limitações que o corpo lhe impunha. No entanto, contrariando todas as regras e superando as expectativas, ele deu uma reviravolta no destino e demonstrou que para cada empecilho encontrado pelo caminho existe um dom a ser desenvolvido. E o resultado positivo dessa batalha contra a própria deficiência veio em forma de livros: um concluído e outro em processo de composição.

Para saber um pouco mais sobre esta linda e emocionante história, a reportagem do JPF foi até a residência de José Fabiano no último dia 13 (quarta-feira). Ao chegar à propriedade, a equipe foi recepcionada pela simpática e hospitaleira Mariana, que abriu a porteira e deu as boas-vindas ao editor Marcus Vinicius Lima, dizendo: “Te conheço da internet”. Feitas as devidas apresentações, perguntamos por José Fabiano, e ela respondeu: “Está lá no quarto rezando”.

Adentramos então a casa e nos deparamos com o escritor aconchegado em uma poltrona, assistindo a programação religiosa de um canal de televisão. Ao perceber a presença da equipe de reportagem, José Fabiano não se conteve e abriu um grande sorriso, daqueles que contagiam a qualquer um.

Depois de um breve bate-papo com o compositor, partimos para a entrevista. Sentado ao lado dos pais, na sala do imóvel em que moram e em frente ao computador utilizado para criar suas obras e manter contato com o mundo externo através da internet, o escritor não escondia a felicidade em poder contar sua história aos leitores do Jornal de Poço Fundo.

De início, José Donizete, o genitor, relembrou as dificuldades que passaram desde o nascimento de José Fabiano, quando a mulher e o filho quase morreram devido a um erro médico. “O Fabiano chegou ao mundo por meio de um parto retardado. Naquela época, tinha que ter feito uma cesariana, pois a gravidez era de risco. Porém, não foi isso o que aconteceu, e os dois não morreram por pouco”.

“Assim que tirou o bebê de dentro da minha barriga, o médico disse que ele estava todo roxo, morto, e que teria que batalhar para salvar a minha vida. Então, comecei a chorar. Mas uma irmã de caridade estava ao meu lado e afirmou que iria me ajudar. Ela falava que ia salvar o nenê. Daí, colocou um aspirador na boca e no nariz dele e foi saindo aquele sangue preto. Passados uns 40 minutos, o Fabiano deu o primeiro suspiro. Mas ele nasceu ‘pretinho’ e foi onde constataram a falta de oxigenação no cérebro. E não acabou. À época, os funcionários do hospital esconderam o bebê de mim. Me deram alta depois de dois dias, mas o nenê ficou. Aí, meu marido foi até lá, brigou e tirou o nosso filho para levar a um médico de Machado. Na cidade vizinha, este profissional nos revelou que o problema se deu durante o parto, devido à falta de oxigenação no cérebro dele. Perante aquela situação, nos unimos e o encaminhamos a especialistas. Anos mais tarde, constatamos que realmente não havia mais nada a ser feito e passamos a levar vida normalmente, sempre zelando por este ser especial que Deus colocou em nossas vidas”, recorda Mariana.

Com o passar do tempo, José Fabiano foi crescendo. Os pais queriam que, mesmo diante das limitações, ele fosse para a escola, mas o garoto era arredio a isso, pois adorava ficar o dia inteiro jogando truco com o avô materno, por quem tinha muito apreço. E vice-versa.

No entanto, uma das irmãs não se conformava em ver José Fabiano sem fazer atividades e resolveu alfabetizá-lo. Para isso, ela escrevia letras em uma cartolina, recortava-as bem grandes, em fôrma, e o ensinava a pronunciar e a identificar o que estava ali à sua frente. “Tudo começou desse jeito, quando ele tinha 13 anos. E o Fabiano aprendeu”, diz a mãe do escritor. “Pouco tempo depois, ele despertou o interesse pela Bíblia e foi lendo as passagens com assiduidade. Se você perguntar onde está o evangelho tal, o Fabiano fala. Aí, a gente vai, confere e realmente está lá”.

Mas, no meio de tanta evolução pessoal, um fato triste acabou deixando José Fabiano abalado. O avô, com quem tinha muita afinidade, ficou doente, entrou em coma e teve que ser levado para um hospital. Daí em diante, as partidas diárias de truco já não existiam mais. Além disso, a mãe, grande companheira de todas as horas, também teve de se ausentar para acompanhar o pai, que estava entre a vida e a morte. Passados dois meses, o avô faleceu e Mariana achou que o filho ficaria muito depressivo com tudo aquilo.

Porém, como a vida é feita de surpresas, durante o tempo em que esteve fora casa, a mãe não sabia de um fato que acabaria mudando a rotina de toda a família, principalmente a de Fabiano. O rapaz tinha ganhado um computador. “Um dia, saí do hospital e fui ver como as coisas estavam na roça. Chegando lá, encontrei várias caixas empilhadas na sala. Ao questionar o que era aquilo, recebi a resposta de que o ex-prefeito e atual vereador Edésio Vasconcellos havia dado um computador ao José Fabiano, para que ele se distraísse e não ficasse pensando na ausência do avô. Isso aconteceu em 2010, quando o meu filho já tinha 31 anos. Aí, apenas disse que aqui ninguém sabia mexer com aquilo e virei as costas. Depois do falecimento do meu pai, retornei pra casa e o computador estava instalado. E, para minha total surpresa, o Fabiano tinha aprendido a utilizá-lo através do pés, batendo o calcanhar nas teclas”, recorda, emocionada, a mãe do escritor.

Com a descoberta do dom, as ideias começaram a borbulhar na cabeça de José Fabiano, que não se conteve e passou a escrever um livro sobre religiosidade, objetivando atingir o público juvenil. “Ele sempre quis evangelizar os jovens. O Fabiano não concorda com as maneiras adotadas pelos adolescentes de hoje. Aí, arrumou essa forma de tentar chegar até essas pessoas, levando reflexões e ensinamentos através da palavra de Deus. Todos nós adoramos a ideia, pois, atualmente, a juventude está bastante perdida e os ‘mocinhos’ e ‘mocinhas’ não vivem sem reclamar. Eles têm tudo que querem, mas não dão valor”, desabafa Mariana.

O livro de José Fabiano, intitulado “Que católico sou eu?”, está finalizado. Ele contém cerca de quarenta páginas e deverá ser publicado em breve. Enquanto isso não acontece, mãos à obra. O escritor já está trabalhando em sua nova criação, que fala sobre liberdade. E o resultado você poderá conferir futuramente nas edições impressas do Jornal de Poço Fundo.

* Esta matéria foi publicada na edição 447 do Jornal de Poço Fundo, do dia 16 de setembro.

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José Fabiano ao computador